Declaração de amor de Ludmilla faz pensar sobre amor entre mulheres

A cantora fez uma música para a namorada, Brunna Gonçalves, e provoca inúmeras reflexões

Reprodução/InstagramReprodução/Instagram

atualizado 11/06/2019 11:50

Semana passada, a cantora Ludmilla anunciou o namoro com uma bailarina de sua equipe, Brunna Gonçalves. Aproveitou para mostrar a música que compôs para a moça. Com a proximidade do Dia dos Namorados, essa é uma bela história para se refletir.

Lembro de poucos exemplos na MPB de músicas românticas cantadas sobre o amor de homem para homem, salvo exemplos bem recentes. No entanto, o “amor lésbico” se faz presente há mais tempo, inclusive na área mais popular – aquela que toca nas rádios e programas de TV de grande repercussão.

O romantismo é tradicionalmente ligado ao feminino e, não poucas vezes, é tratado como “frescura” pelos homens. Por isso, acho tão bonito quando uma mulher dedica seu lado romântico à outra. Talvez ela seja mais capaz de apreciar o quanto é precioso esse gesto, como no caso de Ludmilla. Aliás, deixando claro aqui que nem sei se a cantora ou a bailarina são lésbicas, estamos apenas tratando do sentimento exposto em público.

Sapatões

A presença de “sapatões” na música popular brasileira é antiga – e a expressão usada na frase é justamente para marcar quão pejorativamente se referem às lésbicas. Quantas vezes a poesia e o samba de Leci Brandão foram colocados em cheque porque ela dedicou um disco ao amor entre mulheres? Ou Cássia Eller era tachada de louca só porque agia com irreverência, como qualquer outro cantor de rock? Ou Ana Carolina, que virou mote de piada anos a fio pelos programas de humor? Sem falar de Tuca, Marina Lima, Adriana Calcanhoto, Ellen Oléria…

Ao mesmo tempo, mesmo pessoas heterossexuais já viveram momentos românticos embalados pelas músicas feitas por essas artistas. Homens usaram suas letras para homenagearem as amadas, inclusive porque a música se dirigia exatamente a uma mulher. Quer dizer, ele pode se locupletar da linda mensagem à sua mulher, mas a criadora da obra, ou suas iguais, soam “esquisitas” quando tomam o microfone e dizem as mesmas palavras. Coerência mandou lembranças!

O estereótipo da relação entre lésbicas é bem o que vendem as propagandas de presente para o Dia dos Namorados. A publicidade trabalha é com esses (pre)conceitos, o que primeiro responde a uma imagem ou situação. Então, é bom abrir um pouco mais o olho quando casais LGBTs são incluídos nos cartazes de promoções da marca.

Portanto, se você tem um amor, pega essa música linda da Ludmilla e dá para quem você ama, porque ela foi feita para isso. “Dar palavras àquilo que eu sinto e não sei dizer”, consequência do trabalho de todo grande artista.

SOBRE O AUTOR
Ítalo Damasceno

Formado em direito pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Escreveu sobre cultura em portais do Distrito Federal. É roteirista e já fez curso com o novelista Aguinaldo Silva. Recebeu o prêmio Beijo Livre de Direitos Humanos LGBT 2017 na categoria Mídia, pela coluna Vozes LGBT.

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