Burle Marx está em Nova York, e podia estar muito mais em Brasília

Desprezado pelos que construíram a nova capital do Brasil, um dos mais importantes paisagistas modernos ocupa o Jardim Botânico de NY

CARLÃO LIMEIRA/ESTADÃO CONTEÚDO/AECARLÃO LIMEIRA/ESTADÃO CONTEÚDO/AE

atualizado 11/06/2019 11:56

Não tivesse nascido humano, Roberto Burle Marx teria nascido planta. Olhe os seus cabelos: são folhagens alegres ao vento. A envergadura é potente como a de uma árvore e o sorriso, uma exuberante flor. O brasileiro nascido num casarão que até hoje resiste na Avenida Paulista é um dos mais importantes paisagistas modernos do planeta. Tanto assim que é motivo da maior exposição já feita no Jardim Botânico de Nova York.

Em terras brasileiras, Burle Marx está para o paisagismo como Lúcio Costa para o urbanismo e Oscar Niemeyer para a arquitetura. Em Brasília, está para os jardins como Athos Bulcão está para os painéis e os azulejos. Na história da cidade, está para além desses três; para além até de Juscelino. Burle Marx participou dos primeiros estudos para a mudança da capital para o interior do Brasil, antes mesmo da eleição de JK.

Brasília precisava, merecia e podia ter tido muito mais Burle Marx. Tivessem Lúcio e Oscar atentados um pouco mais para a escala humana, em especial nos espaços monumentais, a cidade seria um pouco menos cruel com quem anda a pé e com quem gosta de ficar ombro a ombro com gente de todo tipo, a toda hora.

Faltou-nos o jardim tropical e sobrou o gramado nu, imitação do estilo inglês, como atentou Leandro Tocantins, historiador paraense (1919/2004), em estudo sobre o paisagismo de Belém do Pará, mas que casa muito bem com o que aconteceu com Brasília.

É imperdoável, mas faltou Burle Marx na Esplanada. O paisagista projetou um grande parque para o canteiro central desde a Rodoviária até o Congresso. “Era dividido em cinco grandes segmentos, representando a flora das regiões do Brasil com suas plantas mais características. Um grande lago cortaria todo o conjunto e este, em fundação da diferença de nível, seria dividido em pequenas barragens de onde a água desceria, para formar um verdadeiro véu e contribuir para melhorar sensivelmente o microclima de seu entorno”, escreveu Roberto Kamp em Burle Marx (2005).

Não se sabe exatamente a razão pela qual o projeto Parque da Esplanada foi desprezado. Burle Marx e Lúcio Costa eram amigos. O primeiro projeto do paisagista foi para uma obra do arquiteto, a Casa Schwartz, no Rio de Janeiro (1932). O jardineiro moderno trouxe o cactus da caatinga para os jardins da casa. “A sua vida – escreveu Lúcio Costa – é um permanente processo de pesquisa e criação. A obra do botânico, do jardineiro, do paisagista, se alimenta da obra do artista plástico, do desenhista e vice-versa, num contínuo vaivém”.

O homem de cabelos de árvore tomou gosto pelas plantas vendo a babá, Anna Piaczec, cultivando verduras, legumes e flores na Vila Fortunata, casarão de número 1919 da Avenida Paulista. Foi lá que Roberto nasceu, em 1909. Duna, como os seis irmãos Marx a chamavam, era também preceptora das crianças – austríaca, falava húngaro, eslovaco e servo-croata e, no Brasil, aprendeu alemão e português, segundo Kamp.

Burle Marx já era um paisagista consagrado quando o marechal José Pessoa o chamou para participar da Comissão de Localização da Futura Capital do Brasil, no governo Café Filho. Ou seja, Burle Marx pôs as mãos em Brasília antes mesmo que Juscelino, Lúcio e Oscar. É bem verdade que ele andou faltando às reuniões, como o marechal Pessoa registrou em Nova metrópole do Brasil. Como ele e os arquitetos Affonso Eduardo Reidy e Stelio de Moraes não apareciam às convocações, Pessoa os substituiu. Tudo isso antes de Juscelino ser eleito, empossado e tomar para si a construção da nova capital.

Só três anos após a inauguração de Brasília é que Burle Marx reaparece para fazer os jardins da sede do Banco do Brasil (aquela do Setor Bancário Sul que foi desativada) e da SQS 308. Depois, estaria no Itamaraty, no Teatro Nacional, no Parque da Cidade (projeto originalmente seu, mas que por ter sido muito desvirtuado, BM o renegou. Dele mesmo ficou a Praça das Fontes).
Burle Marx também está no Teatro Nacional, no Tribunal de Contas da União, no Palácio da Justiça, no Jaburu e na Praça dos Cristais, no QG do Exército, obra pouco visitada e muito bem preservada.

Um jardim, dizia Burle Marx, “é um complexo de estética e intenções plásticas; e a planta é, para um paisagista, não só uma planta – rara, incomum, normal ou quase em extinção – mas é também uma cor, uma forma, um volume ou arabesco em si mesma”.

A exposição no Jardim Botânico de NY fica até setembro. São mais de 80 espécies tropicais, espetáculos musicais e até uma lanchonete temporária chamada Merenda. No cardápio, caipirinha, caipirosca, muito abacaxi, banana e manga e um inesperado churrasco brasiliense, o Brasília Wkewers, com muçarela, abacaxi e pasta de marmelo (quince paste), por cinco dólares. O marmelo talvez seja uma homenagem à marmelada de Santa Luzia, muito famosa no século 19 e produzida artesanalmente até hoje nos arredores de Brasília.

SOBRE O AUTOR
Conceição Freitas

Sou filha de quatro cidades: Manaus, Belém, Goiânia e Brasília. Repórter, cronista e dona de uma banquinha de afetos brasilienses. Guardo em mim amores eternos e 11 prêmios de jornalismo – o mais importante deles, Esso Nacional – por uma série de histórias de amor entre excluídos, portadores de necessidades especiais e errantes de todo tipo. Fui repórter de polícia, cidades, cultura, Brasil. Neta de negro e de índio, sou brasileira até o último fio de cabelo cacheado. Adoro descobrir o sentido que cada pessoa dá à vida. É do sentido delas que construo o meu.

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